Discurso de Encerramento do XVII Congresso do CBP

Caros colegas,

Nosso encontro de Aracajú foi extremamente proveitoso e não podemos deixar passar sem comentários.

Ao final do encontro, considero que o balanço foi bastante positivo, inclusive pelas manifestações que recebi e pelas expectativas que se esboçaram de aproximações futuras e maior integração entre colegas da psiquiatria e também de outras entidades psicanalíticas. O CPS sai fortalecido deste encontro, tanto a nível local quanto nacional, o que, desejamos, alimentará sua chama para prosseguir nesse árduo percurso das instituições psicanalíticas.

Saio deste encontro com uma sensação de realização. Por isso passo a vocês a minha fala de encerramento do congresso onde transmito minhas impressões, aproveitando este espaço para agradecer ao inestimável apoio e colaboração que recebi nestes dois anos de gestão do CBP, que me renderam vários bons encontros alimentando a minha chama e satisfação de pertencer a esta instituição.

Gostaria de agradecer, particularmente, a Anchyses Jobim Lopes(CBP-RJ) pela sua colaboração assídua e produtiva e também a Carlos Perktold(CPMG) pela disponibilidade generosa nos meus primeiros passos na edição da "Estudos de Psicanálise". Eis o meu discurso de encerramento:

Lacan fala do mau encontro em que o sujeito se depara com o limite imposto pelo real que pode ser o da morte ou o da impossibilidade que, convenhamos, vem a dar no mesmo, pois é isso que nos afeta.

Confesso que fiquei um tanto apreensiva, como presidente do CBP, pois não sabia que rumo este encontro entre psicanalistas e psiquiatras poderia tomar tendo em vista toda uma série de desencontros que testemunhei ao longo destes meus quase 30 anos de vivência neste campo e que, em alguns episódios, configuraram-se em verdadeiros embates, extrapolando os limites da educação doméstica.

A fala de Déborah na abertura, de tal forma me tomou, que fiquei sem palavras (sua fala está publicada nos anais do congresso). Não havia mais o que ser dito, ou ainda, o que pensei em dizer perdeu sua importância, pois ela dissera melhor o que eu gostaria, mas não me sentia a vontade para dizer. Talvez tenha sido melhor assim, pois sabemos que é no só depois que podemos dar um verdadeiro sentido áquio que nos toca.

Isto se justifica, ainda, pelo fato de, como psicóloga de formação, ter sido orientada no início de meu percurso pelo lado oposto ao dos psiquiatras, tendo a anti-medicalização como premissa, na suposição de que seria possível dar conta de tudo através da palavra, ali onde a psiquiatria afirmava dar conta de tudo pela medicação. Extremos absolutos, infundados, irreais. Entretanto, agora, na iminência do término deste nosso encontro, agradavelmente desarmada, constato que meus cuidados eram infundados, o que me permite revelar com clareza e sem nenhum tato, meus temores iniciais.

Este nosso encontro, que agora definiria como um bom encontro, suscitou em mim a impressão de que, afortunadamente, vivemos um novo momento em que o diálogo e a parceria entre psiquiatras e psicanalistas, torna-se possível, independentemente das dificuldades entre psiquiatras e psicólogos.

Digo isto porque a psicanálise me ensinou a partir de Freud e de Lacan os poderes e os limites da palavra.

É preciso que se reconheça os poderes da palavra, mas também os poderes do real, do que Freud chamou de pulsão, para além ou mais aquém da realidade. Isto é o que experimentamos ao final de uma análise levada às suas últimas conseqüências e que nos torna verdadeiramente psicanalistas. Não há outro meio. Por isso devemos ter a benevolência e a generosidade sem falsa superioridade, com aqueles que não passaram por esta experiência reveladora.

É preciso assumir que o simbólico, a palavra, não dá conta de tudo e de que toda posição radical nesse sentido é o mero desmentido ou denegação aos quais o psicanalista nunca deve aderir sob pena de ceder do desejo particular e peculiar que deve mover o analista para que ele possa instaurar o ato analítico.

O ofício do analista implica a transmissão e disseminação dessa novidade e do sentido mais revolucionário que a psicanálise introduz no campo da cultura, que é de que o saber não é soberano no que se refere ao mal estar da civilização. Saber a genética, a neurologia, a fisiologia, enfim, saber tudo sobre o corpo não dará conta dos conflitos que a subjetividade nos causa enquanto seres humanos, falantes. E se a palavra não dá conta de tudo, o saber científico, no que se pretende absoluto, também não o fará.

A meu ver, é justamente isso que garante ao psicanalista um lugar no mundo, mesmo que desconfortável e incômodo.

Esta vocação revolucionária que o inconsciente encarna e que possibilitou recolocar a própria psicanálise em seus trilhos a partir da denúncia lacaniana da "burrocratização" da psicanálise e da mestria dos analistas de sua época, deve ser atualizada no exercício diário dos psicanalistas, pois a estereotipia do empuxo ao gozo que a burocracia guarda em si e os assédios do discurso perverso, cada vez mais presente na sociedade contemporânea, não poupam a própria elaboração dos saberes e fazeres, inclusive o psicanalítico, se não formos atentos e cautelosos.

Se a psiquiatria, tanto quanto a psicanálise, se propõe a tratar do pathos-lógico, ou seja, da lógica dos afetos, aí está, a meu ver, a interface mais pura e clara entre a psicanálise e a psiquiatria que as torna primas, na impossibilidade de serem verdadeiras irmãs. Pois considero que é este viés revolucionário que poderá incitar e estimular os psiquiatras do nosso tempo a rever conceitos e retomar seu caminho original, como fizeram tão precocemente psicanalistas como Caruso e depois Lacan, mesmo sendo a psicanálise muito mais jovem que a psiquiatria.

Dito isto, gostaria agora de, como presidente que se despede dessa função, agradecer à Associação Sergipana e à Brasileira de Psiquiatria, que se uniram ao Círculo nessa empreitada, e também à Academia Sergipana de Medicina e Sociedade Médica de Sergipe que nos deram apoio. Em especialmente à Déborah e toda a comissão organizadora que, não sem muito trabalho e empenho, nos propiciaram este bom encontro que deixa a agradável sensação de abertura de uma fronteira que, como um muro, parecia separar psicanalistas e psiquiatras.

Obrigado a todos e parabéns ao CPS, que trabalhou direitinho!

Cibele Prado Barbieri
Presidente do Círculo Psicanalítico da Bahia