DISCURSO PROFERIDO POR DÉBORAH PIMENTEL NA ABERTURA DO XVII CONGRESSO DO CÍRCULO BRASILEIRO DE PSICANÁLISE DIA 30 DE OUTUBRO DE 2008 EM ARACAJU
... se as coisas são inatingíveis... ora
não é motivo para não querê-las
Que tristes os caminhos se não fora
A presença distante das estrelas!
Mário Quintana
Autoridades presentes já nomeadas
Senhores presidentes das federadas do Círculo Brasileiro de Psicanálise
Caros confrades da Academia Sergipana de Medicina
Colegas médicos e psiquiatras da Associação Brasileira de Psiquiatria e Associação Sergipana de Psiquiatria
Colegas do Círculo Psicanalítico de Sergipe
Senhoras e senhores
Meus amigos,
"A ciência moderna ainda não produziu
um medicamento tranqüilizador tão eficaz como
o são umas poucas palavras bondosas" Sigmund Freud
O Círculo Psicanalítico de Sergipe e a Associação Sergipana de Psiquiatria têm a honra de, juntos, receber todos os senhores participantes do XVII Congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise, VII Jornada Sergipana de Psiquiatria e VI Jornada do Círculo Psicanalítico de Sergipe na nossa Aracaju, em terras de Sergipe Del Rey, cidade ainda muito pequena, com hospitalidade, cheirinho e aconchego bem provincianos, rica em belezas naturais, com praias agradáveis, com um gostoso caranguejo - imperdível - e com o charme e facilidades de uma grande capital.
Nós estamos recebendo-os com o mesmo carinho com que fomos acolhidos em Natal , no Congresso passado e com o mesmo axé e astral com que fomos recepcionados o ano passado na Bahia.
Durante o período de organização destes três importantes eventos, algumas vezes nos sentimos pequenos diante de grandes responsabilidades, às vezes cansados diante de tanto trabalho, por vezes aborrecidos com os obstáculos, mas na maior parte do tempo, estimulados diante dos desafios.
E neste momento em que estamos com a casa cheia, nos sentimos gratificados por termos persistido e oferecido o melhor de cada um de nós, para que as coisas funcionassem e saíssem a contento, de maneira que este espaço fosse garantido e que a psicanálise e a psiquiatria se fizessem presentes, sustentadas pelo discurso de cada um de nós participantes, comprometidos que somos com a causa psi.
Quero expressar a minha gratidão a Associação Sergipana de Psiquiatria, na pessoa do seu presidente José Hamilton Maciel Silva Filho e aos demais membros da comissão executiva, psicanalistas e psiquiatras incansáveis: Cecília Tereza Nascimento Rodrigues, Maria das Graças Araújo, Maria Helena Ávila Lima, Norma Alves Oliveira, Patricia Aranda Garcia de Souza, Ricardo Azevedo Barreto e Zaira Maciel Motta. Este evento é dedicado à vocês, que exerceram com galhardia o árduo trabalho de organização, tornando-o prazeroso, hoje gratificante, pelo equilíbrio na distribuição de tarefas e compromisso de todos com o sucesso dos eventos que ora oficialmente iniciam-se. Muito obrigada. Sintam-se carinhosamente abraçados.
O nosso congresso terá como objetivo geral fomentar o debate acerca das dificuldades e limites da clínica, os principais sintomas que afligem o sujeito e os transtornos mentais que promovem impacto no comportamento humano, cujos tratamentos exigem, algumas vezes, abordagem psicanalítica e psiquiátrica simultaneamente.
O nosso cotidiano, a cultura e as relações sociais vêem-se influenciados pela Psicanálise e pela Psiquiatria que já não são consideradas apenas como especialidades, mas uma forma específica de lidar, tratar e acolher o mal estar contemporâneo.
Importante que se desenhe o cenário em que o sujeito vive os dias atuais.
Hoje a fronteira entre o diagnóstico de saúde e os transtornos mentais é muito tênue, o que significa um crescente aumento daquilo que é considerado psiquicamente anormal.
Vive-se em um mundo competitivamente selvagem. Perderam-se as antigas referências. Mudaram as relações pessoais e de trabalho, os conceitos de gênero, de reprodução humana e de família.
Palavras antes usuais, como solidariedade e companheirismo, por exemplo, desapareceram do nosso vocabulário e das relações do cotidiano. Os índices de violência são crescentes, quer nas ruas, quer nas áreas privadas, reinando a intolerância e a insegurança.
Tudo dentro desta engrenagem vertiginosa cotidiana da pós-modernidade é capaz de mobilizar sentimentos contraditórios e nocivos ao equilíbrio e saúde mental por ser capaz de adoecer psiquicamente qualquer sujeito e em especial, aquele mal ajustado e mais frágil, frente aos paradoxos, incertezas e inseguranças do cotidiano que exigem dele atitudes proativas e escolhas imediatas.
O sujeito do terceiro milênio é um desajustado frente à cultura do narcisismo. Ele é um insatisfeito crônico.
A mídia é outra vilã da atualidade capaz de convencer e manipular, transformando desejos em necessidades, o que faz com que esta insatisfação e a promessa de prazer imediato sejam marcas da cultura narcísica.
O culto ao corpo é outra característica deste inicio de século, quando a beleza é vendida como a fórmula que viabiliza o sucesso no amor e nos negócios e torna-se encobridora da falta, em uma franca recusa da castração. O corpo passou a ser palco da perfeição e da juventude eterna e a identificação com estas imagens segue um modelo que aponta para o narcisismo e a tentativa de evitar conflitos e castração. Traz em si uma falsa idéia de felicidade e completude.
Esta felicidade, entretanto, traz um preço, que é ignorar o corpo particular, mortal e histórico uma vez que no ideal contemporâneo não há lugar para a velhice, a doença, a dor, ou mesmo para a morte. O corpo tem deixado de ser o veiculo das sensações e do gozo. Tornou-se apenas aparência, é vazio, é para ser visto e consumido, e na maioria das vezes, supera a importância da subjetividade do sujeito e da sua história pessoal.
Além do culto do corpo e da imagem, os tempos atuais se caracterizam por uma intensa sexualização, com relacionamentos afetivos superficiais e passageiros, caracterizando uma anestesia afetiva, favorecendo os múltiplos casamentos e os novos modelos de família. Há uma busca frenética de satisfação imediata, sem nenhum tipo de reflexão ou questionamento, e onde o gozo é alcançado sem a intermediação do simbólico que é absolutamente falho, inclusive pela pobreza de representação psíquica.
Os tempos mudaram e as manifestações psíquicas não são iguais às do tempo do Dr. Freud e tão de acordo com àquela moral sexual. Hoje, apresentam-se de forma vistosa nas transgressões e violência, no uso das drogas, no consumo exacerbado, no jogo patológico, no uso alienante do computador, no culto ao corpo, nos transtornos alimentares, através dos fenômenos psicossomáticos ou sob a forma de uma depressão importante, entre outros quadros possíveis.
Considerando o sujeito como uma unidade bio-psico-social, fica fácil perceber como questões biológicas, psicológicas e sociais, são favoráveis ao desencadeamento dos transtornos mentais. Justo estas sobreposições de elementos fazem com que sejam valorizadas as interfaces na contemporaneidade entre a Psicanálise e a Psiquiatria, antes campos tão distintos.
Indubitavelmente os psiquiatras sempre foram muito valorizados por tratar-se de uma especialização médica e, por conseguinte, ter como ofício uma prática reconhecida como ciência.
Com o advento das tecnologias como aliadas às ciências biológicas, o campo das neurociências cresceu trazendo compreensões sobre os processos psíquicos nunca dantes sequer imaginados, o que deu ao psiquiatra enquanto especialista , um novo status e poder, cada vez mais conhecedor da fisiologia, patologia e do aparato e arcabouço cerebral e, talvez, sentindo-se cada vez mais preparado para usar do seu arsenal farmacológico para medicalizar o desamparo estrutural do sujeito e tamponar a dor de existir.
Claro, que os verdadeiros psiquiatras, justo os que estão hoje aqui, não duvido, com formação mais humanista, sabem e reconhecem que não basta ficar atento e pesquisar os neurotransmissores e neurohormônios, e que a cura dos seus pacientes não passa necessariamente apenas pelo uso de psicofármacos, que muitas vezes embotam o desejo e impedem que o sujeito entre em contato com a sua própria dor e a partir daí reconheça seus limites e faça novas escolhas, em vez de gozarem nos sintomas que trazem uma simbologia que precisa ser decodificada.
Desde que Freud criou a Psicanálise, este método terapêutico tem sido questionado e nunca foi bem aceito no meio científico, justo pela dificuldade de se mensurar os seus resultados.
Sempre há também aqueles que anunciam que a Psicanálise vai morrer por não ser reconhecida cientificamente ou por ser um método superado.
Os psicanalistas, considerados por muitos e por muito tempo, filósofos da alma, mais ligados à arte do que as ciências sobrevivem, mesmo sob a constante pressão de resultados imediatos em uma era de tratamentos farmacológicos, e sob a ameaça das seguradoras com seus planos e convênios de saúde que cobram tratamentos curtos e eficácia financeira da assistência médica.
Esta sobrevivência se dá graças aos bons resultados que a Psicanálise oferece. Os psicanalistas sempre foram reconhecidos por ajudar o sujeito a lidar com seu desamparo e a aceitar a si mesmo e o outro com maior tolerância, criando possibilidades de mudanças, transformações e resgates de genuínas relações afetivas.
A Folha de São Paulo, no último dia 5 de outubro de 2008, trouxe como manchete na primeira página, a noticia que a comunidade científica finalmente aprovava a técnica criada pelo Dr. Sigmund Freud, e mais, que os seus resultados positivos eram, pasmem os senhores, finalmente reconhecidos e publicados numa revista técnica médica de alto impacto da Associação Médica Americana, pela primeira vez, em estudo realizado pela comunidade científica. Os resultados do estudo científico revelaram que a Psicanálise é eficaz e foi capaz de aliviar os sintomas dos pacientes da pesquisa, portadores de depressão severa, anorexia nervosa e transtorno da personalidade limítrofe, caracterizado por medo de abandono e surtos de desespero.
Até então, só as revistas especializadas em Psicanálise ou psicologia falavam sobre a importância e eficácia das terapias psicodinâmicas.
O mundo acadêmico e os médicos estão descobrindo a roda. Antes tarde do que nunca. A pesquisa não nos surpreende em termos de resultados, claro, mas por ser uma publicação em um espaço reservado a uma categoria que sempre questionou a cientificidade da Psicanálise e que sempre duvidou da técnica, dos seus limites e possibilidades terapêuticas. A ciência se rende à Psicanálise.
A Psicanálise não traz soluções, entretanto desafia aqueles que têm coragem de pensar sobre si e sobre a questão da alteridade e interrogar-se sobre o sentido da vida, nestes tempos em que tudo parece sufocar o sujeito, anular a subjetividade, em um tempo em que cada um vale pelo que tem, consome e produz, e menos pelo que sente ou sabe.
A Psicanálise é importante, justo onde reconhecemos a dimensão trágica do homem. Ela interroga-o sobre o sentido de sua existência possibilitando o surgimento do sujeito. Este é o compromisso da Psicanálise com a história singular de cada um e o reconhecimento do seu desejo.
Em algumas situações o tratamento psicanalítico se distancia muito do tratamento psiquiátrico de forma que o sujeito objeto de ambos parece ser dois indivíduos diferentes, produzindo uma espécie de estranheza que mobiliza os três.
Psiquiatras não podem desqualificar o sujeito do inconsciente e apostar todas as suas fichas nas drogas que prometem a felicidade e anestesiar a dor psíquica de qualquer natureza. Aliás, a dor psíquica é tratada além da Psiquiatria, na medida em que outros especialistas médicos propõem aos pacientes uma adesão quase compulsiva aos psicofármacos. Ninguém, nos dias atuais, pode chorar, fazer luto, ficar triste, sofrer por amor ou desamor. Todo o mal estar e angústias próprias do desamparo estrutural são tratados à base de pílulas.
Por outro lado, os psicanalistas na sua onipotência cega não podem, em certas circunstâncias, ignorar a dimensão corpórea do sujeito, os benefícios farmacológicos e a sua simbologia durante um tratamento.
Para se chegar a um equilíbrio das interfaces entre a Psicanálise e a Psiquiatria é preciso que ambos os profissionais envolvidos percebam que se de um lado a análise provoca certo nível de desprazer no seu processo que aponta para uma singularidade e, simultaneamente revela a complexidade do psiquismo, por outro, a medicação pode, para alguns, ser um aparelho ortopédico que ajuda o sujeito a manter-se de pé e continuar andando. Ou seja, é necessário que ambos compreendam que o ser humano precisa aprender a reconhecer e suportar os limites de sua dor psíquica sem sucumbir à angústia.
Esta sintonia fina entre psicanalista e psiquiatra é percebida pelo paciente que faz maior adesão ao tratamento e não boicota as sessões e nem usa a medicação para fugir do seu desconforto ou garantir a ilusão da satisfação frente à sua falta de crenças e ausência de ideais.
É possível, portanto, havendo respeito sobre as singularidades e limites, manter um diálogo permanente entre a Psicanálise e a Psiquiatria.
Com a proposta do tema, INTERFACES ENTRE A PSICANÁLISE E A PSIQUIATRIA, teremos a oportunidade de ouvir em três dias de trabalho, cerca de 60 palestras, cuidadosamente selecionadas, frutos do trabalho de importantes psicanalistas e psiquiatras, que dirão de suas experiências clínicas e motivarão as discussões sobre os limites terapêuticos e a necessidade de abordagens que contemplam estas duas áreas de atuação, muitas vezes complementares.
Oxalá os Orixás nos ajudem e teremos um Congresso tão brilhante quanto os que temos tido e com o mesmo nível no campo científico e organizacional e que tenhamos aqui em Aracaju, a possibilidade de reforçar os nossos laços afetivos e institucionais, ouvir e trocar nossas experiências e produções teóricas e ainda, que as nossas diferenças possam ser suportadas haja vista ser essa a nossa máxima no Círculo Brasileiro de Psicanálise desde Caruso: pluralidade e diversidade.
Hoje temos a honra de receber todos vocês na nossa casa, e é para vocês que vai o nosso caloroso agradecimento, em especial à comissão científica, Anchyses Jobim Lopes (RJ), Carlos Pinto Corrêa (BA), Cibele Prado Barbieri (BA), José Hamilton Maciel Silva Filho (SE) e Maria Mazzarello Cotta Ribeiro (MG).
Sejam bem vindos a Aracaju! Sejam bem vindos ao XVII Congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise, VII Jornada Sergipana de Psiquiatria e VI Jornada do Círculo Psicanalítico de Sergipe que ora se instalam neste solene momento.
Que tenhamos uma boa caminhada!
Que seja produtivo o nosso encontro!
Que Deus nos abençoe!
Muito Obrigada!
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